Ocorrerão
em Salvador, exatamente nos mesmos dias deste ano – entre 22 e 25 de setembro –
dois eventos acadêmicos na área da Filosofia, O Encontro de Filosofia da Bahia (II EFIBA) e o Congresso
nacional de Filosofia da Libertação (III CBFL).
Consciente da deselegância e desde já pedindo as desculpas àqueles que se
sentirem afetados pela minha humilde ausência, tomo a decisão de comparecer
apenas na minha comunicação no EFIBA e estar presente nos debates do Congresso
de Filosofia da Libertação. Achei por bem expor meus motivos para, assim, abrir um debate sobre estes paradigmas de Filosofia.
Desde
meados da graduação que percebo um desconforto particular em estudar filosofia.
Por mais que explorar a tradição filosófica fosse um elucidativo esforço que possibilita a compreensão dos interstícios argumentativos que sustentam a ideologia da
modernidade, bem como os paradigmas que pretendem superar esta ideologia, ainda
permanecia em minha consciência um vazio, já que tal tradição europeia não reflete a totalidade da experiência de ser brasileiro. Tal inocuidade se acentuava nas iniciativas de
estudos sobre o Brasil dos grupos de pesquisa de Filosofia na UFBA. A
conclusão que conseguia alcançar particularmente ao estudar clássicos do pensamento social brasileiro
era de que o Brasil permanecerá para sempre um enigma indecifrável sob um
regime conceitual que não contempla a peculiaridade da nossa experiência.
A
circularidade da reflexão anterior só me ficou evidente quando pude entrar em
contato com teorias alternativas à tradição europeia. Quando passamos a abordar outras tradições de pensamento, pensamos a
filosofia I) não como uma reflexão de alcance universal, mas como a expressão
racional de uma experiência humana localizada; II)como uma capacidade
genericamente humana de reflexão e não restrita ao “milagre grego”. Fica evidente, portanto, que o pensamento desenvolvido na
Europa não é capaz de contemplar a complexidade da nossa experiência porque ela refere-se a, ao menos, a terça parte do que nós somos. Adicionamos
a esta constatação que a “universalização” do pensamento europeu não é
resultante do convencimento generalizado da humanidade sobre possíveis
estruturas a priori da racionalidade. É bem sabido que a Europa tornou-se o
centro ideológico do mundo a partir dos processos de dominação e exploração de
outros povos (colonialismo do século XV e Imperialismo do século XIX), o que
inclui, entre diversas outras formas de violência, a invisibilização do não - europeu e das suas
possíveis contribuições culturais à humanidade.
Esta
invisibilização adquiriu, também na tradicionalmente, contornos mais evidentes no
pensamento de Hegel, que coloca a Europa como centro histórico do seu sistema da Razão, relegando à infantilidade populações de outros continentes,
justificando inclusive o “projeto civilizatório” (hoje chamado de intervenção humanitária) europeu sobre o mundo. Tal
projeto moderno, caracterizado principalmente por um sentido amalgamador de
igualdade (o mundo deve se tornar a imagem e semelhança do Europeu) evidencia
seus limites ao entrar em contato com o outro e incluí-lo limitadamente nas suas benesses
apenas na medida em que este outro se nega a ser outro e torna-se o mesmo
europeu. Embora nunca consigamos ter a tez pálida e os esvoaçantes cabelos
loiros, tentamos nos tornar europeus por outros meios, possíveis a partir do
mitológico esforço individual de negação das nossas raízes , o que significa
de fato, assumir como nosso um legado cultural e filosófico que só nos “pertence” enquanto reconhecemos a submissão
em suas diversas dimensões como necessária.
Quando
afirmo o “nosso” aqui diálogo com o conjunto das esquecidas raízes não europeias
que nos formam enquanto Brasil. Ao menos duas são rapidamente lembradas, o
negro africano (na qual me incluo) e o aborígene que, em violenta vinculação com o Europeu, formaram esta moderna nação chamada Brasil. Entretanto, cabe lembrar que esta convivência se desdobrou em uma relação
desproporcional de força e violência, onde se consolidou como verdade histórica
a preponderância do Europeu sobre as outras duas matrizes culturais. O elogio
novecentista da miscigenação racial como o arauto brasileiro para um mundo
traumatizado com a morte de brancos pelo nazismo apenas esconde que a nossa
“contribuição” para a formação do país é a forçada concessão das mulheres
negras e índias para se amancebarem com homens brancos e, dessa forma,
favorecer o embranquecimento geral da nação. A outra “miscigenação”, a de cunho
cultural que resgata em práticas cotidianas, oralidades, histórias e manifestações culturais, aquilo que
forma ao menos dois terços do Brasil foi e tem sido até hoje alvo de fortes
perseguições promovidas pelo “Estado de direito” ou, no exemplo mais próximo a
nós da acadêmica, no cotidiano epistemícidio de saberes afrocentrados e
“indiocentrados”.
Deste
modo, sinto-me em exílio neste país que pretende embranquecer, europeizar-se, à
custa da invisibilização – genocida ou epistemológica - do corpo negro e
indígena. Sinto-me ainda mais exilado quando, enquanto negro acadêmico, contribuo
para que esta filosofia dogmaticamente europeia seja a única fonte de reflexão
sobre a nossa condição. As limitações do corpo me colocaram esta decisão e,
neste momento, opto por me posicionar na filosofia contra a invisibilização
histórica e filosófica das minhas raízes, apreendendo com propriedade conceitual aquilo que contribui
para a nossa afirmação e emancipação enquanto negro e latino-americano, não
aquela centrada no individualismo transcendental, mas nesta corpórea, real e
que afeta cotidianamente vários iguais a mim, diversos negados pela igualdade amalgamadora europeia. Vou ao Congresso de Filosofia da Libertação orgulhoso de afirmar uma
filosofia que fala sobre minhas raízes afrocentradas.
Olá Alan, boas questões sobre a possibilidade de pensar/fazer filosofia (do/no) Brasil a partir,e, principalmente,tendo como plataforma nossas raízes culturais, embora devemos reconhecer uma espécie de "gaiola de ouro" em que se caracteriza o pensamento europeu entre nós, revelando obstáculos epistemológicos. Rompê-los, eis o desafio!
ResponderExcluirAbraços,
Ramires.