Hoje fui acometido por dois registros contraditórios. O primeiro foi, logo pela manhã, uma pesquisa de amostragem que questionava a ideia comum de que somos seres naturalmente egoístas. A segunda foi a leitura de um artigo sobre a metafísica do pessimismo em Schopenhauer escrito pelo professor Deyve Redison da UFPB. Estes registros me atinaram para um problema que recorrentemente eu venho encontrando nas leituras para o mestrado, a saber, se somos mesmo individualistas ou se o individualismo corresponde a uma condição humana anterior a sua condição histórica.
Aqui cabe diferenciar Individualismo e Individualidade. Todo ISMO remete a um sistema, a uma forma de interpretação do mundo centrada no prefixo que o antecede, no caso a separação entre Eu e mundo é condição para compreender o real. Isso eu rechaço neste texto. A individualidade remete a esta separação não como único parâmetro de compreensão do mundo, mas como qualidade do individuo que não necessariamente entra em contradição com o mundo. Quero dizer que é possível ao individuo edificar-se em experiências coletivas. Ao individualista, isso pareceria impossível.
Vamos lá!
Se nos basearmos na tradição filosófica europeia como parâmetro universal para compreender a condição humana, tudo indica que somos seres que se realizam e se edificam plenamente na individualidade. Com Descartes o "Eu penso" torna-se parâmetro crucial para fundamentar racionalmente a existência do mundo exterior e a afirmar a emancipação do sujeito com relação a qualquer inteligência superior externa. Algo edificante por um lado, já bastante discutida pela tradição filosófica, porém é ainda mais nefasto se analisado sob a perspectiva de suas consequências sociais e políticas.
Me refiro aqui às derivações iluministas e liberais do "Ego" cartesiano, que abriu espaço para a ideologias profundamente individualistas que permeiam como funestos dogmas religiosos várias dimensões da vida hodierna. Um bom exemplo desta derivação iluminista parte da tradição contratualista que busca um aspecto originário humano, natural, que geralmente se identifica com o individualismo.Se consolida assim a primeira perversão da filosofia, um exercício feito por Descartes para emancipar-se intelectualmente das antigas crenças torna-se, após 150 anos, uma qualidade inata da natureza humana. Ora, se somos individualistas por natureza porque convivemos e compartilhamos espaços coletivos? É o questionamento óbvio de muitos destes pensadores comprometidos com a reformulação burguesa da política
A resposta no entanto, reforça os limites do individualismo. Nos tornamos sociedade organizada com poder soberano (Estado) para evitar os arroubos do nosso egoísmo natural - o desejo de matar o outro, de cercear a liberdade do outro, de macular o sagrado terreno da propriedade privada. Em suma, o Estado surge como um contrato entre indivíduos responsável por garantir aos indivíduos condições para reproduzir a sua individualidade. Enfim, a burguesia faz a revolução e o Estado adquire esta responsabilidade de "prezar pelos direitos individuais". No entanto, a realização política da nossa "natureza" individualista aprofunda o isolamento social, o esvaziamento do espaço público e ao cultivo privilegiado da esfera privada - seja no campo social ou intelectual.
Aquele egoísmo natural, responsável por gerar uma situação de insegurança permanece neste Estado burguês, agora, no entanto, travestido de civilidade política e "democrática", onde o "mérito" individual, fruto de uma edificação solitária, transforma-se na nova arma responsável por aniquilar outros sujeitos, no abstrato ambiente do mercado. Talvez dessa constante competição resulte uma sociedade harmônica, onde os talentos individuais se acomodem naturalmente em funções sociais ao sabor dos interesses de consumo da população.
Pero no...
O "Iluminismo real" que vivemos hoje (também chamado de Modernidade), bem diferente da idílica imagem criada pelos iluministas, deu vazão ao pessimismo sobre a natureza humana. A ideologia da competição natural, que começa lá com Descartes, com a elevação do Eu a categoria determinante do real, transforma-se em pessimismo sobre a própria humanidade. Somos egoístas, misantropos, adeptos da lei de Gerson, sempre que houver oportunidade de lucrar em cima da miséria dos outros nós o faremos!
Eis que surge Schopenhauer que elabora uma metafísica deste pessimismo, uma reflexão filosófica que justifica o egoísmo humano. Somos seres de Vontade, uma vontade que se manifesta nos desejos humanos e das coisas da natureza mas que existe antes dos homens e do mundo, como uma especie de força criadora do universo que se espalha na diversidade do mundo. No mundo, dispersa, tenta se unificar, retomar a unidade perdida vinculando-se à potência de todas as coisas da natureza desejam obter a matéria em detrimento das outras coisas da natureza. No homem esta vontade alcança o mais alto grau de complexidade e também gera os resultados mais devastadores já que, se o mundo é vontade então o homem está destinado a um duplo sofrimento retroalimentado: a constante convivência com o egoísmo e o sofrimento causado pelo desejo insaciável. Estamos condenados ao sofrimento eterno.
Dois auto! Estamos mesmo condenados?
Será realmente que não temos salvação para além da armadilha do egoísmo? Eu me recuso a acreditar nisso. Sempre me recusei e, para resistir ao canto da sereia individualista sempre procurei participar de empreendimentos coletivos. Reafirmar a empatia, o altruísmo e a solidariedade no meu caráter para diminuir a tensão monadológica típica do sujeito burguês é uma prática constante que é essencialmente edificante (inclusive para o meu Eu). O endeusamento do Ego é um dos maiores erros da nossa falida civilização. Somos seres evolutivamente gregários. Não apenas para participar do teológico mercado, mas para criar vínculos, laços, realizar coisas impensáveis ao limite do individuo. Arte, poesia, teatro, ciências, a própria filosofia enriquece em uma roda de iguais em postura de fala, mas principalmente de escuta - porque não há individuo que conheça mais que a coletividade humana.
Pero no...
O "Iluminismo real" que vivemos hoje (também chamado de Modernidade), bem diferente da idílica imagem criada pelos iluministas, deu vazão ao pessimismo sobre a natureza humana. A ideologia da competição natural, que começa lá com Descartes, com a elevação do Eu a categoria determinante do real, transforma-se em pessimismo sobre a própria humanidade. Somos egoístas, misantropos, adeptos da lei de Gerson, sempre que houver oportunidade de lucrar em cima da miséria dos outros nós o faremos!
Eis que surge Schopenhauer que elabora uma metafísica deste pessimismo, uma reflexão filosófica que justifica o egoísmo humano. Somos seres de Vontade, uma vontade que se manifesta nos desejos humanos e das coisas da natureza mas que existe antes dos homens e do mundo, como uma especie de força criadora do universo que se espalha na diversidade do mundo. No mundo, dispersa, tenta se unificar, retomar a unidade perdida vinculando-se à potência de todas as coisas da natureza desejam obter a matéria em detrimento das outras coisas da natureza. No homem esta vontade alcança o mais alto grau de complexidade e também gera os resultados mais devastadores já que, se o mundo é vontade então o homem está destinado a um duplo sofrimento retroalimentado: a constante convivência com o egoísmo e o sofrimento causado pelo desejo insaciável. Estamos condenados ao sofrimento eterno.
Dois auto! Estamos mesmo condenados?
Será realmente que não temos salvação para além da armadilha do egoísmo? Eu me recuso a acreditar nisso. Sempre me recusei e, para resistir ao canto da sereia individualista sempre procurei participar de empreendimentos coletivos. Reafirmar a empatia, o altruísmo e a solidariedade no meu caráter para diminuir a tensão monadológica típica do sujeito burguês é uma prática constante que é essencialmente edificante (inclusive para o meu Eu). O endeusamento do Ego é um dos maiores erros da nossa falida civilização. Somos seres evolutivamente gregários. Não apenas para participar do teológico mercado, mas para criar vínculos, laços, realizar coisas impensáveis ao limite do individuo. Arte, poesia, teatro, ciências, a própria filosofia enriquece em uma roda de iguais em postura de fala, mas principalmente de escuta - porque não há individuo que conheça mais que a coletividade humana.
