sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Estamos mesmo condenados? - Uma reflexão sobre o Individualismo

Hoje fui acometido por dois registros contraditórios. O primeiro foi, logo pela manhã, uma pesquisa de amostragem que questionava a ideia comum de que somos seres naturalmente egoístas. A segunda foi a leitura de um artigo sobre a metafísica do pessimismo em Schopenhauer escrito pelo professor Deyve Redison da UFPB. Estes registros me atinaram para um problema que recorrentemente eu venho encontrando nas leituras para o mestrado, a saber, se somos mesmo individualistas ou se o individualismo corresponde a uma condição humana anterior a sua condição histórica. 

Aqui cabe diferenciar Individualismo e Individualidade. Todo ISMO remete a um sistema, a uma forma de interpretação do mundo centrada no prefixo que o antecede, no caso a separação entre Eu e mundo é condição para compreender o real. Isso eu rechaço neste texto. A individualidade remete a esta separação não como único parâmetro de compreensão do mundo, mas como qualidade do individuo que não necessariamente entra em contradição com o mundo. Quero dizer que é possível ao individuo edificar-se em experiências coletivas. Ao individualista, isso pareceria impossível.

Vamos lá!

Se nos basearmos na tradição filosófica europeia como parâmetro universal para compreender a condição humana, tudo indica que somos seres que se realizam e se edificam plenamente na individualidade. Com Descartes o "Eu penso" torna-se parâmetro crucial para fundamentar racionalmente a existência do mundo exterior e a afirmar a emancipação do sujeito com relação a qualquer inteligência superior externa. Algo edificante por um lado, já bastante discutida pela tradição filosófica, porém é ainda mais nefasto se analisado sob a perspectiva de suas consequências sociais e políticas.

Me refiro aqui às derivações iluministas e liberais do "Ego" cartesiano, que abriu espaço para a ideologias profundamente individualistas que permeiam como funestos dogmas religiosos várias dimensões da vida hodierna. Um bom exemplo desta derivação iluminista parte da tradição contratualista que busca um aspecto originário humano, natural, que geralmente se identifica com o individualismo.Se consolida assim a primeira perversão da filosofia, um exercício feito por Descartes para emancipar-se intelectualmente das antigas crenças torna-se, após 150 anos, uma qualidade inata da natureza humana. Ora, se somos individualistas por natureza porque convivemos e compartilhamos espaços coletivos? É o questionamento óbvio de muitos destes pensadores comprometidos com a reformulação burguesa da política

A resposta no entanto, reforça os limites do individualismo. Nos tornamos sociedade organizada com poder soberano (Estado) para evitar os arroubos do nosso egoísmo natural - o desejo de matar o outro, de cercear a liberdade do outro, de macular o sagrado terreno da propriedade privada. Em suma, o Estado surge como um contrato entre indivíduos responsável por garantir aos indivíduos condições para reproduzir a sua individualidade. Enfim, a burguesia faz a revolução e o Estado adquire esta responsabilidade de "prezar pelos direitos individuais". No entanto, a realização política da nossa "natureza" individualista aprofunda o isolamento social, o esvaziamento do espaço público e ao cultivo privilegiado da esfera privada - seja no campo social ou intelectual.

Aquele egoísmo natural, responsável por gerar uma situação de insegurança permanece neste Estado burguês, agora, no entanto, travestido de civilidade política e "democrática", onde o "mérito" individual, fruto de uma edificação solitária, transforma-se na nova arma responsável por aniquilar outros sujeitos, no abstrato ambiente do mercado. Talvez dessa constante competição resulte uma sociedade harmônica, onde os talentos individuais se acomodem naturalmente em funções sociais ao sabor dos interesses de consumo da população.

Pero no...

O "Iluminismo real" que vivemos hoje (também chamado de Modernidade), bem diferente da idílica imagem criada pelos iluministas, deu vazão ao pessimismo sobre a natureza humana. A ideologia da competição natural, que começa lá com Descartes, com a elevação do Eu a categoria determinante do real, transforma-se em pessimismo sobre a própria humanidade. Somos egoístas, misantropos, adeptos da lei de Gerson, sempre que houver oportunidade de lucrar em cima da miséria dos outros nós o faremos!

Eis que surge Schopenhauer que elabora uma metafísica deste pessimismo, uma reflexão filosófica que justifica o egoísmo humano. Somos seres de Vontade, uma vontade que se manifesta nos desejos humanos e das coisas da natureza mas que existe antes dos homens e do mundo, como uma especie de força criadora do universo que se espalha na diversidade do mundo. No mundo, dispersa, tenta se unificar, retomar a unidade perdida vinculando-se à potência de todas as coisas da natureza desejam obter a matéria em detrimento das outras coisas da natureza. No homem esta vontade alcança o mais alto grau de complexidade e também gera os resultados mais devastadores já que, se o mundo é vontade então o homem está destinado a um duplo sofrimento retroalimentado: a constante convivência com o egoísmo e o sofrimento causado pelo desejo insaciável. Estamos condenados ao sofrimento eterno.

Dois auto! Estamos mesmo condenados?

Será realmente que não temos salvação para além da armadilha do egoísmo? Eu me recuso a acreditar nisso. Sempre me recusei e, para resistir ao canto da sereia individualista sempre procurei participar de empreendimentos coletivos. Reafirmar a empatia, o altruísmo e a solidariedade no meu caráter para diminuir a tensão monadológica típica do sujeito burguês é uma prática constante que é essencialmente edificante (inclusive para o meu Eu). O endeusamento do Ego é um dos maiores erros da nossa falida civilização. Somos seres evolutivamente gregários. Não apenas para participar do teológico mercado, mas para criar vínculos, laços, realizar coisas impensáveis ao limite do individuo. Arte, poesia, teatro, ciências, a própria filosofia enriquece em uma roda de iguais em postura de fala, mas principalmente de escuta - porque não há individuo que conheça mais que a coletividade humana.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Filosofia, tradição e dogma


Afinal, se a filosofia pode ser, em linhas muito gerais, tomada por sua capacidade crítica de buscar justificação num franco exercício de desbanalização das generalizações fáceis e de desnaturalização das certezas defendidas inadequadamente ou sem 'fundamento' porque razões a filosofia deixaria de problematizar e desnaturalizar sua filiação e sua certidão de nascimento? Porque deveria existir um tabu para a filosofia? (...) Porque temeria colocar sob suspeita o que entendemos como um desmedido alargamento de uma história parcial e local como universal? 
(NOGUERA, Ensino de Filosofia e a lei 10.639, p. 52, 2014)

Após alguns anos dedicados com afinco aos cursos e estudos de filosofia acadêmica posso afirmar que a Filosofia será o último baluarte do conservadorismo. Pode parecer estranho ao leitor diletante de filosofia ou aos jovens que apreendem da filosofia a sua verve crítica uma afirmação deste tipo. A Filosofia se afasta da ciência exatamente por não ter pressupostos determinados a priori, por ter virtualmente objetos de pesquisa infinitos, pode refletir sobre todos os aspectos da condição humana de maneira absoluta sem admitir dogmas, o que permite à esta amigável atividade humana a crítica dos pressupostos sob os quais se sustentam a ciência e a vida social e política como um todo. A filosofia acadêmica brasileira, por outro lado, me parece abandonar esta verve antidogmática que inspirou tantas pessoas nesta bela e sem sentindo aventura do pensamento.
Penso comigo que dois expedientes conspiraram para este abandono: a total reverência à tradição europeia de filosofia que nutrimos em nossos jovens filósofos e a universalidade desta tradição filosófica europeia, pretensamente capaz de expressar a totalidade da condição humana.

Primeiramente, há de fazer a velha ressalva à tradição, necessária para afastar comentários de leitores desonestos. Toda formação acadêmica exige uma apropriação da tradição. Isso é ponto pacífico e se mostra ainda mais pertinente quando falamos de filosofia, uma vez que as reflexões filosóficas não caducam com o tempo como acontece com os métodos de outras formações onde a prática profissional ou cientifica determina o que será descartado e o que será assumido. Em Filosofia, pelo fato de lidarmos com conceitos e categorias, não podemos prescindir de nada que faça parte da tradição uma vez que conhecer filosofia significa apreender com rigorosidade os conceitos e categorias que sustentam os problemas filosóficos levantados. Tal apreensão de conceitos e categorias exige um estudo aprofundado dos textos clássicos onde estas categorias se apresentam o que proporciona um conhecimento do conjunto das notas características de cada categoria utilizada para sustentar os sistemas e teses filosóficas. O problema se mostra quando o recurso à tradição se converte em reverência à tradição.

Considero como reverência à tradição o entendimento de que a reflexão filosófica se identifica totalmente com a interpretação dos textos filosóficos clássicos. Tal postura torna-se reverência, dogmática e, portanto, antifilosófica, ao delimitar que um texto filosófico só adquire validade na medida em que reflete sobre ou reproduz os conteúdos de um texto consagrado pela tradição. Tal postura pode parecer compreensível para estudantes em formação (o tal do “andar sobre ombro de gigantes” que nossos professores nos falam), mas esta fórmula carrega ao menos duas ideologias perversas: I) que não somos capazes de sermos tão filósofos quanto os filósofos que reverenciamos e II) que todos os problemas da humanidade (do passado, presente e futuro) encontram correlato na tradição filosófica, sendo dispensável a reflexão alheia à tradição.

Com esta segunda perversidade caminharemos ao segundo expediente, a pretensa universalidade da tradição filosófica europeia. Apesar de todas as viradas antropológicas, históricas, linguísticas, cientificas e imanentistas em geral que a filosofia europeia pretensamente realizou esta tradição ainda é herdeira das pretensões do platonismo, principalmente aquela que trata da universalidade da filosofia. Ainda creem que apenas os povos de origem europeia podem produzir filosofia e, a partir de seu gueto global, refletir sobre o mundo sem necessidade de dialogar efetivamente com os saberes deste mundo. Ou será que somos nós, seres com mente, corpos e atitude acadêmica colonizada, que acreditamos dogmaticamente nesta universalidade do pensamento europeu? Estou inclinado a aceitar esta segunda hipótese. Muitos colegas – até mesmo aqueles de postura crítica ao status quo - defendem fervorosamente o “milagre grego”, o surgimento de um pensamento conceitual rigoroso como fruto da sociabilidade da polis grega. Ainda vou ler mais sobre o tema, mas recorro aqui a Renato Noguera (O Ensino de Filosofia e a lei 10.639, Ed. Pallas) quando questiona sobre a possibilidade de delimitarmos à apenas um povo a criação de artes e ofícios desenvolvidos por toda a humanidade. Noguera se questiona: de qual povo legamos a arquitetura? Qual cultura inventou a música? E porque a filosofia possui data e local de nascimento definidos?

Ora, se pensarmos que os gregos estabeleciam barreiras geográficas entre o humano (identificado com o heleno) e o não – humano (os “bárbaros”, fora das fronteiras do mundo grego) e que esta característica de negação do outro faz parte da formação da Europa moderna (o ódio aos imigrantes sírios e o fascismo que sempre ronda o velho continente são evidência dessa ojeriza ao outro), é possível intuir que a Filosofia tornou-se uma das várias características distintivas da superioridade europeia com relação aos outros povos, segundo critérios próprios dos europeus. A capacidade de pensar, restrita geograficamente ao gueto europeu, serve como instrumento ideológico de dominação geopolítica e colonização de outros saberes, considerados a priori como menos elaborados e sofisticados do que o filosófico europeu.

Mas a Filosofia é, como afirmarmos, a reflexão mais profunda sobre a totalidade da condição humana. Se partirmos desta premissa, qual a validade conceitual desta restrição europeia do fazer filosófico?  Nenhuma a não ser vontade de poder submeter o outro ao julgo de critérios regionais tomados como globais. A condição humana, no sentido mais geral do termo, abarca outras formas de saber, de interpretar e de estar no real que não são necessariamente validadas pelo critério europeu alçado pela força de genocídios e armas a condição de universal. A nossa condição no Brasil, por exemplo, de negros, latino-americanos e indígenas nativos não são compreendidas pela filosofia tradicional. Estariam elas fora do real? Penso que na reflexão sobre o tema se esconda a chave para refletirmos sobre o suposto “enigma” da identidade brasileira.

Estas populações viveram milênios sem os europeus e se reconfiguraram para resistir de diversos modos ao domínio colonizador. Saberes foram produzidos a partir destes processos históricos, saberes que podem ser refletidos filosoficamente, se esta for entendida de maneira mais ampla, se abandonarmos esta qualidade guetificada da filosofia.


Entretanto, já ouço ao escrever este texto o chiado dos colegas. Defenderão com todas as forças tudo aquilo que propus refletir aqui. Conservar o que está estabelecido é mais importante do que refletirmos sobre nossas posturas reflexivas e sobre a pertinência de certos expedientes acadêmicos? Será que a tradição europeia, pretensamente UNIversal, é capaz de falar melhor sobre o Brasil do que a realidade PLURIversa propriamente brasileira? Equidade cognitiva e escuta do outro é o que falta à nossa vã filosofia...