Muita
repercussão teve a viagem de Jean Wyllys a Israel. Dos membros de centros
acadêmicos combativos das federais desse nosso Brasil a próceres da luta pelos
direitos humanos no Brasil e no mundo, todos e cada um tinha uma opinião a dar
para o deputado Jean Wyllys. Opiniões que giravam em torno de condenar ou
apoiar o convite recebido pelo primeiro e único deputado LGBT para discursar na
Universidade Hebraica de Jerusálem sobre a sua atuação na área de Direitos
Humanos e impressões acerca da questão Palestina. Não desejo aqui repercutir um
dos lados, apesar de me afirmar como alguém favorável a luta palestina e contra
muitos dos posicionamentos preconceituoses de Jean Wyllys acerca do “terrorismo”
dos estados islâmicos e da justa guerra ao terror norte americano (isso sem
falar da “cavalice” da sua assessoria de comunicação com os comentários
contrários).
Quero
refletir sobre algo que me parece maior, que me parece estar por trás e
respaldar as melhores intenções de Jean Wyllys com esta viagem. Para quem leu
os relatos dele no Facebook – a despeito da ingenuidade e contemporização das atrocidades do estado israelita – suas intervenções em solo
oriental giravam em torno do problema da paz entre dois povos, do direito de
ambos de estarem ali e conviverem pacificamente. De fato, Jean Wyllys assume
posturas que para as mentes radicais da esquerda, estão em cima do um muro na ontologizada dicotomia da luta de classes. Mas o que ele reflete – ou ao
menos o que deseja refletir em sua ação militante – é aquela postura de grandeza
moral, heroica até que aqueles sujeitos engajados no aprofundamento
da justiça social inspiram nas outras pessoas.
Reitero
o heroico da postura de Jean Wyllys não para enaltecer sua abnegação individual
diante das grandes causas da humanidade. Mas para destacar uma posicionamento político que ultrapassa o ódio de classes que se despeja sobre as pessoas indistintamente, algo que ele personifica em seus relatos. Uma qualidade que devemos
assumir, se não quisermos ser incoerentes com nossos próprios princípios de
justiça social, para toda a humanidade (anseio final de uma possível revolução).
Se lutamos pelo fim da opressão às minorias operada por um sistema econômico
(capitalismo), social e cultural (eurocentrismo) excludente, é válido
fazê-lo alimentando a oposição à existência da humanidade do opressor? Deixe-me
dizer de outro modo: faz parte da nossa luta reproduzir o silenciamento do
opressor contra o opressor?
Esse
é um questionamento filosófico. Daqueles tipos que nosso professor de filosofia de escola fala quando trata do “mito da caverna”, lembra? Daqueles que ultrapassam a
multiplicidade do sensível e se atêm a ideia pura e simples, aquilo que é essencial por ser sem contradição. Pela ideia, as
pessoas de esquerda deveriam ser as mais tolerantes, pois reconhecem o sofrimento
causado pela exclusão e deseja libertar a humanidade. Mas a limitação deste raciocínio
é o grande erro de Platão. Somos seres de carne e osso, imersos neste mundo que,
a cada injustiça, aumenta o nosso desejo de lutar contra seus agentes, mesmo
sendo eles agentes automáticos do capital. Daí deriva-se o ódio e a violência
contra aqueles que começaram a violência. O vício do círculo permanece intacto.
Volto
a Jean. Não podemos simplesmente pedir Paz. Precisamos lutar por justiça e isso
implica em alguma violência contra autoritarismos que almejam “lembrar-nos”
qual é o nosso lugar e com quem estamos falando. A questão Palestina é o maior
exemplo disso. Não podemos chamar de paz a ocupação israelense na Palestina que
reduz a população árabe a ínfimos redutos altamente vigiados pelas forças de
repressão israelense. Essa é a questão urgente devido à violência e a
invisibilidade deste povo diante das nobres intenções reparativas dos judeus.
Devemos lutar contra isso. Mas lutar contra a doutrina violenta de Israel
significa, necessariamente, negar a existência do Estado de Israel? A
coabitação poderia ser viável? Este grande valor humano, o coabitar a mesma
esfera cósmica que gira em torno do mesmo sol que nos ilumina, é o que Jean Wyllys
está tentando defender com esta viagem. Se esse heroísmo é um alvissareiro caminho rumo a um outro mundo ou apenas ingenuidade de pessoas bem intencionadas, tenho minhas dúvidas.
