domingo, 15 de março de 2015

Filosofia e democracia (ou sobre o problema da falta de ambas)

(originalmente, este texto foi escrito como contribuição ao curso EAD de “Ensino de Filosofia no Ensino Médio” da UFBA. Por apoio da minha companheira, sai como a primeira contribuição deste blog).

Ainda estou com dificuldade para organizar o tempo e ler os textos do módulo atual, mas o questionamento sobre a intersecção entre Filosofia e questões econômicas, políticas e sociais que permeiam o cotidiano dos estudantes, me parece ser um tema que, neste dia 15 de março, merece uma análise menos presa a letra dos artigos (os lerei em breve, mas me dei a liberdade de dissertar sobre livremente dessa vez).

Como todos devem ter visto pela massiva cobertura televisiva (global, para ser mais exato), tivemos uma série de manifestações pelo Brasil que pedem em sua ampla maioria, o impeachment de Dilma  por suposta participação direta nas propinas da Petrobrás descobertas pela Operação Lava - Jato da política federal e o retorno da ditadura militar como remédio para a corrupção que, segundo a parca análise dos "manifestantes", supostamente se iniciou nos governos do PT. Tais manifestações estão permeadas por um sinistro ar de raivosidade anti-democrática onde os avanços sociais conquistados pelos governos do PT (fim da miséria crônica, consolidação da democracia, eficiência e autonomia investigativa da polícia federal), embora tímidos, são hostilizados como parte de uma "cubanização do Brasil" que estaria se tornando uma "ditadura socialista" que não garante liberdade política para a sociedade. Tal reivindicação sempre vem acompanhada das mais funestas manifestações de violência contra a opinião diferente que vai desde a vaia pública, o impedimento da fala contraditória até a agressão física do diferente. Não há diálogo, prevalece apenas o império mimado do "tudo que eu grito, deve virar lei!" inclusive ameaçando a própria ordem democrática do nosso país, ao impor a subversão do resultado eleitoral de novembro passado sob regência da grande mídia golpista.

Esta situação lamentável da nossa sociedade reflete, entre outras carências da nossa formação, a limitação que temos em desenvolver reflexões e argumentações válidas e coerentes com a realidade. Muitos dos que participaram destas manifestações e eu tive o desprazer de esbarrar durante os últimos dias demonstraram essa incapacidade de pensar autonomamente. Buscam gurus (Olavo de Carvalho, Mises, Reinaldo Azevedo, Magnoli entre outros próceres do golpismo) que apresentem uma representação pronta e fechada da realidade que não exige reflexão e nem confronto com a realidade para serem comprovadas. Simplesmente, exigem a pregação autoritárias em todos os meios possíveis, fechando-se ao diálogo e à livre circulação de ideias.

Dessa forma, o ensino de Filosofia, muito longe de resolver todos os problemas da nossa jovem e frágil democracia, pode intervir em um dos principais entraves da nossa difícil convivência política não favorecida, a saber, a disposição de abrir-se para o diálogo e refletir sobre o que o externo pode proporcionar às convicções enraizadas no subjetivo, essência de uma democracia saudável
A Filosofia tem, em sua prática o exato contrário. Para além de ser uma verborragia de verdades, ela é a pura prática de buscar apaixonadamente o verdadeiro partindo do pressuposto de que, de fato, nada sabemos. Humildemente, vamos ao mundo munidos do que temos em mãos não para afirmar que o mundo é, mas para que o mundo nos ajude a aprender mais sobre ele e sobre as infinitas possibilidades do pensamento. No campo político, isso significa abrir-se ao princípio da democracia que é a igualdade e o diálogo. Construir coletivamente propostas que sejam benéficas para a sociedade significa abrir-se para aquilo que a sociedade tem a oferecer para o seu próprio desenvolvimento.

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