(originalmente,
este texto foi escrito como contribuição ao curso EAD de “Ensino de Filosofia
no Ensino Médio” da UFBA. Por apoio da minha companheira, sai como a primeira
contribuição deste blog).
Ainda estou com dificuldade
para organizar o tempo e ler os textos do módulo atual, mas o questionamento
sobre a intersecção entre Filosofia e questões econômicas, políticas e sociais
que permeiam o cotidiano dos estudantes, me parece ser um tema que, neste dia
15 de março, merece uma análise menos presa a letra dos artigos (os lerei em
breve, mas me dei a liberdade de dissertar sobre livremente dessa vez).
Como todos devem ter visto
pela massiva cobertura televisiva (global, para ser mais exato), tivemos uma
série de manifestações pelo Brasil que pedem em sua ampla maioria, o
impeachment de Dilma por suposta
participação direta nas propinas da Petrobrás descobertas pela Operação Lava -
Jato da política federal e o retorno da ditadura militar como remédio para a
corrupção que, segundo a parca análise dos "manifestantes",
supostamente se iniciou nos governos do PT. Tais manifestações estão permeadas
por um sinistro ar de raivosidade anti-democrática onde os avanços sociais
conquistados pelos governos do PT (fim da miséria crônica, consolidação da
democracia, eficiência e autonomia investigativa da polícia federal), embora
tímidos, são hostilizados como parte de uma "cubanização do Brasil"
que estaria se tornando uma "ditadura socialista" que não garante
liberdade política para a sociedade. Tal reivindicação sempre vem acompanhada
das mais funestas manifestações de violência contra a opinião diferente que vai
desde a vaia pública, o impedimento da fala contraditória até a agressão física
do diferente. Não há diálogo, prevalece apenas o império mimado do "tudo
que eu grito, deve virar lei!" inclusive ameaçando a própria ordem
democrática do nosso país, ao impor a subversão do resultado eleitoral de
novembro passado sob regência da grande mídia golpista.
Esta situação lamentável da
nossa sociedade reflete, entre outras carências da nossa formação, a limitação
que temos em desenvolver reflexões e argumentações válidas e coerentes com a
realidade. Muitos dos que participaram destas manifestações e eu tive o
desprazer de esbarrar durante os últimos dias demonstraram essa incapacidade de
pensar autonomamente. Buscam gurus (Olavo de Carvalho, Mises, Reinaldo Azevedo,
Magnoli entre outros próceres do golpismo) que apresentem uma representação
pronta e fechada da realidade que não exige reflexão e nem confronto com a
realidade para serem comprovadas. Simplesmente, exigem a pregação autoritárias
em todos os meios possíveis, fechando-se ao diálogo e à livre circulação de
ideias.
Dessa forma, o ensino de
Filosofia, muito longe de resolver todos os problemas da nossa jovem e frágil
democracia, pode intervir em um dos principais entraves da nossa difícil
convivência política não favorecida, a saber, a disposição de abrir-se para o
diálogo e refletir sobre o que o externo pode proporcionar às convicções
enraizadas no subjetivo, essência de uma democracia saudável
A Filosofia tem, em sua
prática o exato contrário. Para além de ser uma verborragia de verdades, ela é
a pura prática de buscar apaixonadamente o verdadeiro partindo do pressuposto
de que, de fato, nada sabemos. Humildemente, vamos ao mundo munidos do que
temos em mãos não para afirmar que o mundo é, mas para que o mundo nos ajude a
aprender mais sobre ele e sobre as infinitas possibilidades do pensamento. No
campo político, isso significa abrir-se ao princípio da democracia que é a
igualdade e o diálogo. Construir coletivamente propostas que sejam benéficas
para a sociedade significa abrir-se para aquilo que a sociedade tem a oferecer
para o seu próprio desenvolvimento.
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