domingo, 13 de setembro de 2015

EFIBA Ou Libertação?

Ocorrerão em Salvador, exatamente nos mesmos dias deste ano – entre 22 e 25 de setembro – dois eventos acadêmicos na área da Filosofia, O Encontro de Filosofia da Bahia (II EFIBA) e o Congresso nacional de Filosofia da Libertação (III CBFL). Consciente da deselegância e desde já pedindo as desculpas àqueles que se sentirem afetados pela minha humilde ausência, tomo a decisão de comparecer apenas na minha comunicação no EFIBA e estar presente nos debates do Congresso de Filosofia da Libertação. Achei por bem expor meus motivos para, assim, abrir um debate sobre estes paradigmas de Filosofia.

Desde meados da graduação que percebo um desconforto particular em estudar filosofia. Por mais que explorar a tradição filosófica fosse um elucidativo esforço que possibilita a compreensão dos interstícios argumentativos que sustentam a ideologia da modernidade, bem como os paradigmas que pretendem superar esta ideologia, ainda permanecia em minha consciência um vazio, já que tal tradição europeia não reflete a totalidade da experiência de ser brasileiro. Tal inocuidade se acentuava nas iniciativas de estudos sobre o Brasil dos grupos de pesquisa de Filosofia na UFBA. A conclusão que conseguia alcançar particularmente ao estudar clássicos do pensamento social brasileiro era de que o Brasil permanecerá para sempre um enigma indecifrável sob um regime conceitual que não contempla a peculiaridade da nossa experiência.

A circularidade da reflexão anterior só me ficou evidente quando pude entrar em contato com teorias alternativas à tradição europeia. Quando passamos a abordar outras tradições de pensamento, pensamos a filosofia I) não como uma reflexão de alcance universal, mas como a expressão racional de uma experiência humana localizada; II)como uma capacidade genericamente humana de reflexão e não restrita ao “milagre grego”. Fica evidente, portanto, que o pensamento desenvolvido na Europa não é capaz de contemplar a complexidade da nossa experiência porque ela refere-se a, ao menos, a terça parte do que nós somos. Adicionamos a esta constatação que a “universalização” do pensamento europeu não é resultante do convencimento generalizado da humanidade sobre possíveis estruturas a priori da racionalidade. É bem sabido que a Europa tornou-se o centro ideológico do mundo a partir dos processos de dominação e exploração de outros povos (colonialismo do século XV e Imperialismo do século XIX), o que inclui, entre diversas outras formas de violência, a invisibilização do não - europeu e das suas possíveis contribuições culturais à humanidade.

Esta invisibilização adquiriu, também na tradicionalmente, contornos mais evidentes no pensamento de Hegel, que coloca a Europa como centro histórico do seu sistema da Razão, relegando à infantilidade populações de outros continentes, justificando inclusive o “projeto civilizatório” (hoje chamado de intervenção humanitária) europeu sobre o mundo. Tal projeto moderno, caracterizado principalmente por um sentido amalgamador de igualdade (o mundo deve se tornar a imagem e semelhança do Europeu) evidencia seus limites ao entrar em contato com o outro e incluí-lo limitadamente nas suas benesses apenas na medida em que este outro se nega a ser outro e torna-se o mesmo europeu. Embora nunca consigamos ter a tez pálida e os esvoaçantes cabelos loiros, tentamos nos tornar europeus por outros meios, possíveis a partir do mitológico esforço individual de negação das nossas raízes , o que significa de fato, assumir como nosso um legado cultural e filosófico que só nos “pertence” enquanto reconhecemos a submissão em suas diversas dimensões como necessária.

Quando afirmo o “nosso” aqui diálogo com o conjunto das esquecidas raízes não europeias que nos formam enquanto Brasil. Ao menos duas são rapidamente lembradas, o negro africano (na qual me incluo) e o aborígene que, em violenta vinculação com o Europeu, formaram esta moderna nação chamada Brasil. Entretanto, cabe lembrar que  esta convivência se desdobrou em uma relação desproporcional de força e violência, onde se consolidou como verdade histórica a preponderância do Europeu sobre as outras duas matrizes culturais. O elogio novecentista da miscigenação racial como o arauto brasileiro para um mundo traumatizado com a morte de brancos pelo nazismo apenas esconde que a nossa “contribuição” para a formação do país é a forçada concessão das mulheres negras e índias para se amancebarem com homens brancos e, dessa forma, favorecer o embranquecimento geral da nação. A outra “miscigenação”, a de cunho cultural que resgata em práticas cotidianas, oralidades, histórias e manifestações culturais, aquilo que forma ao menos dois terços do Brasil foi e tem sido até hoje alvo de fortes perseguições promovidas pelo “Estado de direito” ou, no exemplo mais próximo a nós da acadêmica, no cotidiano epistemícidio de saberes afrocentrados e “indiocentrados”.

Deste modo, sinto-me em exílio neste país que pretende embranquecer, europeizar-se, à custa da invisibilização – genocida ou epistemológica - do corpo negro e indígena. Sinto-me ainda mais exilado quando, enquanto negro acadêmico, contribuo para que esta filosofia dogmaticamente europeia seja a única fonte de reflexão sobre a nossa condição. As limitações do corpo me colocaram esta decisão e, neste momento, opto por me posicionar na filosofia contra a invisibilização histórica e filosófica das minhas raízes, apreendendo com propriedade conceitual aquilo que contribui para a nossa afirmação e emancipação enquanto negro e latino-americano, não aquela centrada no individualismo transcendental, mas nesta corpórea, real e que afeta cotidianamente vários iguais a mim, diversos negados pela igualdade amalgamadora europeia. Vou ao Congresso de Filosofia da Libertação orgulhoso de afirmar uma filosofia que fala sobre minhas raízes afrocentradas.

Um comentário:

  1. Olá Alan, boas questões sobre a possibilidade de pensar/fazer filosofia (do/no) Brasil a partir,e, principalmente,tendo como plataforma nossas raízes culturais, embora devemos reconhecer uma espécie de "gaiola de ouro" em que se caracteriza o pensamento europeu entre nós, revelando obstáculos epistemológicos. Rompê-los, eis o desafio!

    Abraços,
    Ramires.

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