segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Brasília ou A embranquecedora modernidade brasileira



Fiquei devendo aos amigos que compartilharam comigo no começo deste ano a viagem para um evento estudantil de filosofia uma reflexão escrita sobre o significado daquela experiência. Prometemos uns aos outros em lisérgicas madrugadas que produziríamos relatos próprios acerca daqueles reveladores dias. Sim, apocalípticos para consciências marxistas em formação já que confirmamos o óbvio racismo e exclusão social que estruturam a modernidade à brasileira, tendo Brasília como seu símbolo arquitetônico e ético maior. Explico.

Viver aquela cidade foi para nós, estudantes universitários negros, um choque de realidade sobre a sofisticação do racismo a brasileira, disfarçado de "democracia racial" e miscigenação (de corpos, apenas, há de frisar) que sustenta a idílica visão do Brasil como país da harmonia social entre as raças. De fato, saímos todos nós de lá com a certeza de termos presenciado da maneira mais escancarada a realização do projeto embranquecedor do país, formulado ainda no final do século XIX quando, recém-saído da escravidão, encarava a massa populacional negra como um "estorvo" ao desenvolvimento nacional.

Este projeto embranquecedor almejava uma violenta assemelhação do Brasil a Europa, seja pelo exaustivo uso de referências urbanas modernas, seja pelo puro e simples projeto de "higienização" completa do país, a qual se realiza pelo incentivo estatal à imigração e fixação europeia no Brasil (dúvida? Veja mais aqui). A exclusão do "outro" indesejável - principalmente o negro - dos espaços públicos foi e é ainda hoje o ordenamento espacial das grandes cidades que centralizam os serviços públicos, de cultura e lazer no centro da cidade mas impede de todos os modos o acesso à cidade.

Na composição do Distrito Federal, com o plano piloto e suas cidades satélites, entretanto, essa exclusão assume um caráter mais perverso. Se nas metrópoles brasileiras vemos nossos irmãos e irmãs ocupando os espaços da cidade, apesar das dificuldades colocadas ao acesso, o DF pode ser considerado como um nefasto modelo desta proposta embranquecedora e excludente de higienização de espaços do Brasil. Enquanto a mão de obra negra foi explorado para erigir a majestosa e desenvolvimentista nova capital do país, foram estes mesmos corpos escorraçados da cidade voltada a abrigar os funcionários públicos de alto gabarito.

Grande maioria de brancos, descendentes daqueles que gozaram das antigas cotas graciosamente dadas pelo estado brasileiro racista herdadas na imigração europeia, baseadas na marginalização do negro do acesso ao emprego e renda. P
or volta de 1950 - 1960, estes mesmos brancos já tinham os títulos, pedigree e currículos necessários para ocupar tais cargos. 

Aos negros daquela cidade, restaram a pecha de "calangos" , mais um exemplo de animalização do negro e que compõe o raso folclore brasiliense, além da favelização completa destes que, sem condições materiais e educativas para ocupar cargos públicos federais, se apertam nas periféricas e precarizadas cidades-satélites, servindo até hoje como mão-de-obra invisível que serve à higienizada e moderna Brasília.

Retomei, após tantos meses estas mal traçadas linhas por uma reflexão levantada por Abdias Nascimento em seu livro "ABC do Quilombismo". Segundo Abdias:


"Para os africanos escravizados assim como para os seus descendentes "libertos", tanto o Estado colonial português quanto o Brasil - colônia, império e república - têm uma única e idêntica significação: um estado de terror organizado contra eles. Um Estado por assim dizer natural em sua iniqüidade fundamental, um Estado naturalmente ilegítimo. Porque tem sido a cristalização político-social dos interesses exclusivos de um segmento elitista, cuja aspiração é atingir o status ário-européia em estética racial, em padrão de cultura e civilização. Este segmento tem sido o maior beneficiário da espoliação que em todos os sentidos tem vitimado o povo afro-brasileiro ao longo da nossa história."

Brasília é um monumento público ao racismo estrutural brasileiro. Sintomático desse caráter estrutural é ser Brasília a capital do país. Um aviso constante de que somos habitantes indesejáveis no Brasil deles, corpos descartáveis ou, na melhor das hipóteses,  pessoas marrons que devem manter uma postura submissa. Parece também um constante aviso dos brancos aos negros do país, avisando-nos que o poder público envidará esforços para manter a estrutura de privilégios do branco intacta.

Nosso papel é lutar por igualdade real, não meramente formal ou filosófico-transcendental. Se não encaramos o racismo que figura estampado em todas as dimensões do ethos brasileiro, todo discurso de igualdade será simples falatório ou erudição vazia proferida com o intuito de desviar irmãos e irmãs da consciência racial necessária para nos afirmarmos completamente, sem precisar das diversas migalhas dos brancos.

Um comentário:

  1. Sensacional análise! estive em Brasília na mesma ocasião que você, vi, senti e obtive as mesmas constatações! Brasília com certeza cooperou para que meus sentidos fossem aguçados em relação ao racismo. Parabéns pelo texto, representado..

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